top of page

Ansiedade pode causar falta de concentração e problemas de memória?

  • Foto do escritor: Letícia Tressino
    Letícia Tressino
  • há 21 horas
  • 5 min de leitura
mesa de trabalho e estudo com caderno, caneta, folhas

Você começa uma tarefa, mas logo percebe que está pensando em outra coisa. Lê o mesmo parágrafo várias vezes sem conseguir acompanhar. Esquece o que iria fazer, perde objetos ou sente dificuldade para organizar decisões aparentemente simples.

Quando isso acontece com frequência, é comum concluir:


“Minha memória está ruim.”

“Não consigo mais me concentrar.”

“Talvez eu esteja ficando incapaz.”


Entretanto, dificuldades de atenção e memória não surgem apenas por falta de esforço ou por uma deficiência individual. Elas também podem aparecer quando a pessoa está ansiosa, sobrecarregada, dormindo mal ou precisando acompanhar muitas preocupações ao mesmo tempo.


A atenção não funciona como um botão

A atenção não é uma função isolada que pode ser simplesmente ligada ou desligada. Para prestar atenção, precisamos manter certo nível de disposição, selecionar informações importantes, inibir distrações, sustentar uma atividade e perceber quando precisamos corrigir o que estamos fazendo.

Na neuropsicologia desenvolvida por Alexander Luria, processos como atenção, memória, linguagem e planejamento são compreendidos como sistemas funcionais complexos. Isso significa que não dependem de uma única região cerebral nem permanecem iguais em todas as situações.

Diferentes áreas e processos participam de uma atividade conforme a tarefa, as condições do ambiente, a história da pessoa e os recursos que ela consegue utilizar. A neuropsicologia sistêmica contemporânea mantém essa compreensão: as funções psicológicas são dinâmicas, distribuídas e capazes de se reorganizar conforme o contexto.

Por isso, uma pessoa pode conseguir se concentrar em determinada atividade e, ao mesmo tempo, encontrar enorme dificuldade para realizar outra. Isso não é necessariamente incoerência. As tarefas podem ter sentidos, exigências emocionais e condições muito diferentes.


Por que a ansiedade disputa nossa atenção?

Quando existe preocupação intensa, parte da atividade psicológica fica direcionada para antecipar problemas, rever conversas, avaliar riscos ou imaginar o que poderá dar errado.

A pessoa pode continuar trabalhando, estudando ou conversando, mas ao mesmo tempo mantém outra sequência de pensamentos em andamento:

“E se eu não conseguir?”

“Será que esqueci alguma coisa?”

“O que vão pensar?”

“Preciso resolver tudo hoje.”


Essa atividade paralela pode tornar mais difícil manter informações na memória de trabalho, alternar entre tarefas e controlar voluntariamente o foco.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 reuniu 32 estudos e mais de 13 mil participantes para investigar funções executivas em pessoas com transtorno de ansiedade generalizada. Os resultados apontaram associações entre a ansiedade e dificuldades em componentes do funcionamento executivo, embora a intensidade e o tipo dessas dificuldades variem entre pessoas e estudos.

Esses dados não significam que toda pessoa ansiosa terá um comprometimento cognitivo. Também não significam que toda dificuldade de concentração seja causada por ansiedade. Eles mostram que emoção e cognição não funcionam como dimensões completamente separadas.


Ansiedade, memória e excesso de informações

Para lembrar de algo, primeiro precisamos conseguir registrá-lo. Quando a atenção está dividida entre uma tarefa e muitas preocupações, a informação pode não ser plenamente acompanhada desde o início.

Nesse caso, a experiência subjetiva é de esquecimento, mas parte da dificuldade pode ter acontecido antes: a informação não chegou a ser organizada de maneira suficiente para ser recuperada depois.

Também é comum tentar compensar essa dificuldade aumentando a cobrança:

“Preciso prestar mais atenção.”

“Não posso cometer nenhum erro.”

“Tenho que me controlar.”

A autocobrança pode aumentar ainda mais a tensão, criando um ciclo entre preocupação, esforço excessivo, cansaço e novas dificuldades de concentração.


Nem toda falta de concentração significa TDAH

A popularização de conteúdos sobre saúde mental fez muitas pessoas reconhecerem dificuldades reais. Ao mesmo tempo, sintomas isolados começaram a ser interpretados como provas de um diagnóstico.

Problemas para se concentrar podem estar relacionados a diferentes fatores, entre eles:

  • ansiedade e preocupação;

  • privação ou irregularidade do sono;

  • sobrecarga de trabalho;

  • conflitos e dificuldades emocionais;

  • excesso de tarefas simultâneas;

  • uso constante de notificações e interrupções;

  • tristeza ou perda de interesse;

  • condições físicas e efeitos de medicamentos;

  • TDAH ou outras condições neuropsicológicas.


Um diagnóstico não deve ser estabelecido apenas porque a pessoa se identifica com uma lista encontrada na internet. É necessário compreender desde quando a dificuldade ocorre, em quais situações aparece, como afeta a vida e quais outras condições podem estar envolvidas.


O contexto também participa da dificuldade

Na Psicologia Histórico-Cultural, a atividade psicológica não é compreendida fora da vida concreta.

A concentração de alguém que trabalha sob pressão constante não pode ser analisada da mesma forma que a concentração de alguém em um ambiente previsível e com tempo suficiente para realizar as tarefas.

Do mesmo modo, é difícil sustentar a atenção quando a pessoa precisa conciliar trabalho, cuidados domésticos, estudos, problemas financeiros, relações familiares e a expectativa de permanecer disponível o tempo todo.

A pergunta deixa de ser apenas:

“Por que eu não consigo me concentrar?”

E passa a incluir:

“Em quais condições estou tentando me concentrar?”

“Quantas coisas estou tentando acompanhar ao mesmo tempo?”

“Que preocupações estão ocupando minha atividade?”

“Qual é o sentido dessa tarefa para mim?”

Essas perguntas não eliminam a responsabilidade individual, mas evitam transformar um problema complexo em defeito pessoal.


O que pode ajudar no cotidiano?

Não existe uma única estratégia que funcione para todas as pessoas. Alguns recursos podem ajudar a diminuir as exigências sobre a memória e a atenção:

  • registrar compromissos e informações fora da memória;

  • dividir tarefas grandes em etapas concretas;

  • reduzir atividades simultâneas;

  • definir o que precisa ser feito agora e o que pode esperar;

  • criar intervalos que realmente interrompam a atividade;

  • diminuir notificações durante tarefas que exigem concentração;

  • observar em quais horários há maior disposição;

  • usar instruções escritas ou falar consigo durante uma tarefa;

  • revisar expectativas que tornam qualquer erro inaceitável.

Na perspectiva luriana, recursos externos, linguagem, anotações e instruções não são “muletas” que enfraquecem a mente. Eles podem participar da organização e regulação da atividade psicológica.


Como a psicoterapia pode ajudar?

Na psicoterapia, é possível investigar:

  • quando as dificuldades de concentração começaram;

  • quais situações aumentam ou diminuem o problema;

  • que preocupações permanecem ativas durante o dia;

  • como a autocobrança afeta o desempenho;

  • quais condições da rotina estão produzindo sobrecarga;

  • como sono, trabalho e relações se articulam com a ansiedade;

  • quais formas de organização são possíveis na vida concreta da pessoa.


O objetivo não é exigir que você controle todos os pensamentos ou mantenha produtividade constante. O processo pode ajudar a compreender o que está organizando sua atenção atualmente e a construir formas mais possíveis de lidar com as demandas.


Quando procurar ajuda?

Pode ser importante buscar acompanhamento quando as dificuldades de atenção, memória ou organização:

  • produzem sofrimento frequente;

  • prejudicam trabalho, estudos ou relações;

  • vêm acompanhadas de ansiedade intensa;

  • persistem mesmo após mudanças na rotina;

  • começaram de maneira repentina;

  • geram dúvidas sobre a necessidade de avaliação médica ou neuropsicológica.


A psicoterapia não substitui avaliações médicas ou neuropsicológicas, sendo possível ser recomendado pela psicóloga. Esses cuidados podem ser realizados de maneira complementar.


Psicoterapia para ansiedade

A psicoterapia pode oferecer um espaço para compreender a ansiedade sem reduzi-la a uma falha individual. Consideramos sua história, suas relações, sua rotina e as condições concretas em que as dificuldades aparecem.


Você pode entrar em contato para conhecer o funcionamento, consultar horários e esclarecer dúvidas antes de decidir pelo início do atendimento.


Luria, A. R. (1981). Fundamentos de neuropsicologia (J. A. Ricardo, Trad.). LTC/Edusp. (Obra original publicada em 1973).

Nguyen, L., Walters, J., Hutchinson, E., Liu, Y., Li, X., & Gudmundsson, C. (2025). Executive functioning in individuals with generalized anxiety disorder: A systematic review and meta-analysis. Journal of Affective Disorders, 389, 119683. doi: 10.1016/j.jad.2025.119683.

Girotti, M., Bulin, S. E., & Carreno, F. R. (2024). Effects of chronic stress on cognitive function: From neurobiology to intervention. Neurobiology of Stress, 33, 100670. doi: 10.1016/j.ynstr.2024.100670.

Guiral, J. A. (2026). Systemic neuropsychology: Toward a contemporary theory of topological functional systems. Frontiers in Psychiatry, 17, 1745418. doi: 10.3389/fpsyt.2026.1745418.


Comentários


  • Whatsapp
  • LinkedIn
  • Instagram
flores

Letícia Cristina Tressino Santos | Psicóloga — CRP 06/155851
Psicoterapia online para adultos | Atendimento respeitoso às diversidades
WhatsApp | E-mail | Instagram | LinkedIn


Este site e seus canais de contato são destinados a informações e agendamentos e não oferecem atendimento imediato ou emergencial. Em situação de risco imediato, procure o SAMU 192, uma UPA ou um pronto-socorro. Para apoio emocional, CVV 188.
 

bottom of page