Estamos cansados o tempo todo e já não sabemos mais como descansar ou Estão roubando nosso descanso
Atualizado: 12 de set.

Por que estamos sempre cansados, mesmo depois de dormir e descansar? E como esse cansaço é uma arma ideológica?
No final do dia, depois de finalizada a jornada de trabalho e de terminar algumas tarefas pessoais inevitáveis, você tem finalmente um tempinho pra relaxar e descansar. Talvez ler, ouvir música, praticar um hobby, encontrar alguém...
Você deita no sofá ou na cama, pega o celular e abre alguns apps, rede social. Assiste um vídeo curto enquanto a tv está ligada. Responde uma mensagem. Volta pra timeline e vai rolando infinitamente.
Num piscar de olhos duas horas se passaram e você não fez nada do que queria. E continua cansado. Só que agora cansado e frustrado.
É verdade que estamos usando nosso tempo livre de uma maneira prejudicial, mas esse é apenas um aspecto que acaba mascarando a questão como um problema de má escolha individual.
A maior parte do nosso dia está fora da nossa determinação
Possuímos limites determinados que condicionam a nossa vida.
Sobre o tema atual, há um limite físico e biológico básico: a necessidade de dormir.
A média recomendada para a população adulta é de 8 horas de sono por noite (lembrando que a duração do sono não garante por si só sua qualidade). Isso já ocuparia 1/3 do nosso tempo no dia a dia.
Porém, é muito comum que essa recomendação básica não seja totalmente cumprida. Muitos brasileiros roubam horas que deveriam ser dedicadas ao sono para dar conta de outras necessidades e obrigações ou simplesmente para ter um momento para si.
Uma noite com menos de 7 horas dormidas já pode ser considerada restrição de sono e apresenta repercussões no dia seguinte que podem dificultar a realização de atividades para a própria reprodução social, como sonolência, lapsos na atenção, tempo de reação mais lento, maior dificuldade de regulação emocional e outros;
Isso leva à uma contradição: tiramos tempo do sono para conseguir fazer mais coisas e, no dia seguinte, temos menos condições, energia e atenção para realizar nossas atividades.
Outro limite é determinado pelo modo de produção social
Para a grande maioria da população adulta, 1/3 do dia (8 horas) é ocupado com o trabalho para que seja possível a própria reprodução social: moradia, alimentação, transporte e todas as condições necessárias para continuar vivendo.
Porém, a média nacional de horas trabalhadas por dia não conta o tempo de preparo para trabalhar, como o deslocamento. Segundo dados do Censo de 2022, cerca de 1.3 milhão de trabalhadores levam mais de duas horas para chegar no trabalho. Assim como também não leva em conta o tempo usado em outras atividades que são necessários para a sobrevivência, mas que estão fora do trabalho remunerado: cozinhar, limpar, compras etc...
Aqui fica evidente a necessidade da redução da jornada de trabalho como medida para atenuar as más condições sociais da população.
E o tempo que sobra? Se é que sobra....
No fim do dia até podemos ter o desejo (às vezes nem isso resta) de usar o pouco tempo que sobrou com alguma atividade que estamos com vontade há um tempo... Porém, aqui temos duas dificuldades:
1) Se o tempo que sobrou é pouco, qual atividade vou escolher? Podemos ter interesse de fazer muitas coisas, atividade física, aprender um idioma ou instrumento, jogar algum videogame, ler um livro, assistir um filme ou série, conversar com um amigo mas, ao fim do dia, depois da jornada de trabalho e tarefas doméstica, não há tempo para muitas atividades. O máximo que pode ser feito é escolher uma dentre várias;
2) Qualquer atividade que seja benéfica e gere prazer vai demandar pelo menos um pouco de disposição, disponibilidade e energia. Em que condições está alguém que teve que acordar cedo, se deslocar no trânsito, trabalhar por horas, voltar pra casa, cumprir algumas tarefas básicas e estar pronto para outra jornada dessas no dia seguinte? É muito provável que consumir telas e rolar o feed de redes sociais seja o máximo possível.
E isso vira um ciclo-vicioso
Esse tipo de consumo simultâneo de telas e mídias e rolagem de feed, apesar de não exigir muita energia e atenção, também não produz descanso ou bem-estar. E assim você termina o dia não só cansado, mas também frustrado.
A saída não é individual
Muitas vezes acabamos nos culpando por ter desperdiçado o tempo que tivemos. Porém, é necessário entendermos que essa questão deriva de uma condição estrutural e que serve como ferramenta e manutenção dessa mesma estrutura.
As plataformas digitais lucram com o nosso consumo, chamam de economia de atenção. Quanto mais tempo e engajamento investimos em certos aplicativos, mais lucro geramos. Ou seja, há um interesse econômico bem direto em nos mantermos conectados e cada vez mais são desenvolvidas estratégias para garantir nossa atenção: rolagem infinita, notificações, recomendações personalizadas, vídeos curtos, conteúdo de fácil consumo etc
Estamos gerando lucro dentro e fora do nosso ambiente de trabalho. E as plataformas digitais também levam a manutenção da nossa organização social. O trabalho e as obrigações nos cansam e o nosso “tempo livre” não gera descanso, energia, disposição.
Essa dinâmica trabalho + plataformas digitais nos suga a ponto de produzirem indivíduos que têm condições apenas de manterem as coisas como estão. Sem resistência. Sem luta. Sem defesa dos nossos próprios interesses.
E o que cabe à Psicologia?
Na psicoterapia temos dois caminhos de atuação, que devem ser complementares e que possuem várias ramificações mas aqui apresento de forma simplificada:
1) Levantar as condições individuais, elaborar e implementar estratégias possíveis para melhorar as condições pessoais e imediatas de cada um;
2) Desenvolver reflexão e conscientização não apenas de si e suas condições pessoais, mas também das estruturas que condicionam seu modo de vida para que seja possível buscar e desenvolver relações e espaços coletivos e até organização para luta social e política de melhores condições de vida.
Dessa forma, a busca por melhoria individual gera a possibilidade de sair do estado de sobrevivência para a busca por melhorias coletivas.



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