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Relações, consumo, redes sociais e porquê está difícil cultivar conexões

Foto do escritor: Letícia Tressino
Letícia Tressino
7 de ago.
8 min de leitura

Nunca tivemos tantas possibilidades de encontrar pessoas, manter contato, acompanhar a vida de quem está longe e conhecer alguém novo. Em poucos segundos, podemos enviar uma mensagem, entrar em uma comunidade, encontrar pessoas com interesses semelhantes aos nossos ou deixar de acompanhar alguém com quem não queremos mais ter contato. E, ainda assim, a solidão se tornou uma preocupação mundial de saúde pública.

Em 2025, a Organização Mundial da Saúde estimou que aproximadamente uma em cada seis pessoas no mundo vivencia solidão. Entre adolescentes, a proporção chega a cerca de uma em cada cinco. A OMS também estimou que a solidão esteve associada a mais de 871 mil mortes por ano, além de se relacionar a piores desfechos de saúde física e mental.


Surge então uma pergunta aparentemente contraditória:

como podemos estar tão conectados e, ao mesmo tempo, encontrar tanta dificuldade para nos sentirmos conectados?


Talvez parte da resposta esteja não apenas na quantidade das nossas interações, mas nas condições em que estamos aprendendo a nos relacionar.


Quando o mundo começa a se adaptar a nós

Com a internet, passamos a ter a possibilidade de acessar informações de forma fácil e rápida. Porém, as redes sociais não apresentam a realidade. O que aparece em nossa tela é selecionado a partir de inúmeras informações sobre aquilo que assistimos, curtimos, comentamos, compartilhamos, pesquisamos ou ignoramos. Progressivamente, as plataformas aprendem nossas preferências.

O que você consumiu e interagiu será reforçado e aparecerá mais. E o que você não interagiu ou consumiu será evitado. Ou seja, você deixa de ter acesso à realidade, com suas contradições e complexidade para ter acesso a uma versão da realidade, simplista, reducionista e cômoda.

A formação das chamadas “bolhas” resulta da interação entre algoritmos, escolhas das próprias pessoas, redes sociais preexistentes e condições sociais mais amplas - Interesses econômicos e ideológicos dominantes, por exemplo. Mas, a nível individual, estamos cada vez mais acostumados a ambientes personalizados.


Se uma música não agrada, pulamos.

Se um vídeo demora para chegar ao ponto, deslizamos a tela.

Se uma opinião incomoda, deixamos de seguir.

Se determinado conteúdo não corresponde aos nossos interesses, o algoritmo aprende a mostrá-lo menos.


Pouco a pouco, podemos habitar um ambiente no qual aquilo que diverge de nós se torna cada vez mais fácil de evitar. Mas pessoas não funcionam como algoritmos.


Pessoas não são conteúdos personalizados

Uma relação contém necessariamente algo que não controlamos: o outro. Esse outro possui história, desejos, limites, contradições, necessidades e maneiras de interpretar o mundo que raramente coincidem completamente com as nossas. Por isso, qualquer vínculo um pouco mais próximo produzirá, em algum momento, divergência, incômodo e frustração. O outro (seja amigo, família, parceiria amorosa) vai discordar, não atender às nossas expectativas, dizer algo que incomoda e nos decepcionar.


Nós também podemos decepcionar os outros.


Isso não significa que todo sofrimento precise ser tolerado. Existem relações violentas, abusivas, humilhantes ou repetidamente desrespeitosas das quais se afastar pode ser uma importante forma de proteção. Estabelecer limites é uma conquista fundamental para muitas pessoas.

O problema aparece quando começamos a sentir que todo e qualquer disconforto, divergência e frustração são tóxicos e precisam ser evitados.Nesse caso, uma linguagem originalmente destinada a proteger as pessoas pode acabar nos ensinando algo diferente: eliminar rapidamente qualquer experiência que provoque sofrimento.

Mas será possível construir intimidade sem atravessar nenhum desconforto? É possível viver sem incômodo.


O desconforto é parte da experiência humana

Há ainda uma contradição importante na ideia de que cuidar de si significa evitar a qualquer custo aquilo que produz desconforto. Do ponto de vista biológico, o incômodo não é uma falha no funcionamento da vida: ele é parte do próprio funcionamento que permite mantê-la.

Fome, sede, frio, calor, cansaço e dor são experiências desagradáveis justamente porque sinalizam alterações relevantes no estado do organismo e mobilizam ações capazes de regulá-la - a tal da homeostase.

Esse processo de relação externa e interna funciona por sinais que orientam comportamento, aprendizagem e tomada de decisão. Antonio Damasio tem chamado atenção para o papel evolutivo desses sentimentos homeostáticos: sentir que algo não está bem oferece ao organismo informações importantes para a regulação da própria vida. Pesquisas contemporâneas em neurociência também mostram que a motivação está profundamente relacionada a esses mecanismos de regulação corporal.

Isso exige, porém, uma diferenciação:

homeostase não significa viver permanentemente em um estado imóvel de equilíbrio e bem-estar.

Organismos vivos sobrevivem justamente porque são capazes de mudar diante das mudanças do mundo. A noção contemporânea descreve essa capacidade de alcançar estabilidade por meio da mudança, inclusive antecipando necessidades e reorganizando o organismo e o comportamento diante delas.

Podemos pensar então no desconforto não necessariamente como algo que deve ser eliminado imediatamente, mas como uma fonte de informação e uma experiência que nos coloca em movimento.

O incômodo pode nos fazer procurar água quando sentimos sede, abrigo quando sentimos frio, descanso quando estamos exaustos — e, em outro nível de complexidade, pode nos levar a perguntar o que precisa mudar em uma relação, comunicar uma necessidade, rever uma expectativa, compreender uma diferença ou transformar uma forma de estar com o outro.

Não porque todo sofrimento seja necessário ou benéfico, mas porque uma vida completamente orientada pela eliminação imediata de qualquer estado desagradável entraria em contradição com a própria dinâmica da vida, que se regula, se reorganiza e se desenvolve diante de tensões.


Nas relações humanas, é prejudicial reduzir experiências sociais complexas aos mecanismos biológicos da fome ou da sede. Somos seres históricos, culturais e sociais. A capacidade de perceber tensões e produzir respostas diante delas é parte de nossa história evolutiva; e, no plano propriamente humano, aquilo que fazemos com essas tensões é também construído social e historicamente. A pergunta, portanto, talvez não seja apenas “como faço para deixar de sentir isso?”, mas também:

“o que esse incômodo revela sobre mim, sobre esta relação e sobre as condições em que estamos nos relacionando — e o que podemos fazer a partir dele?”


Limite também pode ser encontro

Muitas vezes entendemos o limite como uma linha entre inclusão/exclusão. Mas o limite pode ser um convite ao encontro, quando entendido como forma de comunicação.

“Quando isso acontece, eu me sinto assim.”

“Isso é importante para mim.”

“Não consigo continuar dessa maneira.”

“Podemos tentar fazer diferente?”

Nesse sentido, estabelecer um limite não precisa significar necessariamente encerrar uma relação. Pode significar criar condições para que ela se transforme. Isso exige algo que nossa cultura de produtividade também já transformou em mercadoria: tempo.

Tempo para conversar.

Tempo para compreender.

Tempo para descobrir se o outro consegue modificar alguma coisa.

Tempo para perceber se nós mesmos precisamos modificar algo.

E também tempo para reconhecer quando, apesar das tentativas, aquela relação realmente se tornou insustentável.

Existe uma enorme diferença entre permanecer indefinidamente em uma situação que nos machuca e tolerar a inevitável dose de contradição presente no encontro com qualquer outro ser humano.


Quando as relações assumem a lógica do consumo

Vivemos em uma sociedade organizada segundo a lógica do mercado. Somos permanentemente convidados a comparar opções, avaliar produtos, buscar melhor desempenho, otimizar tempo e substituir aquilo que deixou de satisfazer nossas necessidades (até as necessidades artificiais).


Essa lógica faz sentido quando escolhemos um celular.

Mas o que acontece quando começamos a aplicá-la às pessoas?

Nas relações, podemos começar a perguntar:

O que essa pessoa acrescenta à minha vida?

Esse vínculo está me entregando aquilo que eu espero?

Existe alguém mais compatível?

Por que investir tanto esforço aqui se existem tantas outras possibilidades?


A relação passa gradativamente do campo da construção compartilhada para o campo da avaliação. Como um produto, ela precisa demonstrar rapidamente seu valor. Avaliamos o custo x benefício. Se for custoso demais descartamos. É só substituir.

Devemos nos perguntar: Será que não estamos mantendo relações de forma utilitária?

Porque nossas relações humanas demandam algo que a lógica do consumo não tolera: responsabilidade pelo outro, espera, afeto, memória, cuidado e tempo - coisas que não foram totalmente cooptadas pela lógica do lucro (ainda).


A uberização dos vínculos

Podemos pensar em uma espécie de uberização das relações. Na economia das plataformas, o serviço deve estar disponível quando solicitado e desaparecer quando deixa de ser necessário. Quando essa lógica atravessa a vida afetiva, podemos começar a desejar vínculos igualmente disponíveis:

companhia quando estou sozinho;

acolhimento quando preciso;

sexo quando desejo;

conversa quando estou disposto;

distância quando a relação exige algo de mim.

O outro corre o risco de aparecer como uma espécie de prestador de experiências emocionais.


Cultivar relações também seja reaprender a suportar o encontro

Uma relação não precisa ser mantida a qualquer custo. Não precisamos permanecer onde existe violência, humilhação, coerção ou ausência persistente de reciprocidade.

Mas proteger-se não precisa significar construir uma vida na qual nada nos atravessa. Relacionar-se implica ser afetado. Em alguns momentos, isso será agradável.

Em outros, produzirá incômodo. E justamente nesse espaço entre aquilo que eu gostaria que o outro fosse e aquilo que ele realmente é existe a possibilidade de encontro.

Talvez uma das perguntas importantes de nosso tempo seja:

estamos aprendendo a estabelecer limites ou estamos aprendendo a eliminar tudo aquilo que não conseguimos controlar?

e:

estamos escolhendo relações ou consumindo experiências relacionais?

Estamos procurando pessoas com quem construir alguma coisa ou procurando pessoas atendam a desejos e necessidades específicos em nossa vida?


Há algo importante em reconhecer que cuidar da saúde mental não significa produzir uma existência sem conflitos.Uma vida sem contradições provavelmente seria também uma vida sem encontros verdadeiros.

Na perspectiva histórico-cultural, nossas relações não são apenas elementos que tornam a vida mais agradável. É por meio delas que produzimos nossa própria humanidade.

Por isso, discutir solidão, redes sociais e vínculos não é apenas discutir escolhas individuais. É discutir também que formas de vida estamos construindo — e que formas de relação queremos tornar possíveis.


Uma leitura a partir da psicologia histórico-cultural

Para a psicologia histórico-cultural, a partir da obra de Lev Vigotski, não podemos compreender o indivíduo como um ser isolado que “entra” em contato com a sociedade. O indivíduo se constrói apenas na sociedade e suas relações.

Aquilo que chamamos de psiquismo — nossas formas de pensar, sentir, significar a realidade e nos relacionar — é a história de tornar do indivíduo o que está ao seu redor, na sociedade, por meio das relações diretas.

As relações sociais não constituem apenas um cenário onde a vida acontece. Elas são o meio pelo qual nos tornamos nós mesmos. É nesse sentido que a conhecida formulação vigotskiana de que “por meio dos outros, tornamo-nos nós mesmos” adquire tanta força.

Se nossas formas de sentir e pensar são construídas historicamente nas relações sociais, então também precisamos perguntar:

que tipo de pessoa uma sociedade baseada em velocidade, produtividade, consumo e descartabilidade produz?

Se somos constantemente estimulados a evitar perdas de tempo, será estranho termos dificuldade em sustentar os períodos aparentemente improdutivos necessários para construir intimidade?

Se o consumo oferece milhares de alternativas, será estranho imaginar que talvez exista sempre alguém melhor esperando alguns cliques adiante?

Se os algoritmos progressivamente selecionam aquilo que combina conosco, será estranho que a divergência real provocada por outra pessoa se torne cada vez mais difícil de suportar?

O objetivo dessas perguntas não é condenar indivíduos a reproduzirem dinâmicas estruturais, mas tornar consciente essa dinâmica para que seja possível nos posicionarmos a criar tensões e resistências a essa forma de viver.


Referências e dados utilizados

Organização Mundial da Saúde. From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies. Relatório da Comissão da OMS sobre Conexão Social, 2025.

Organização Mundial da Saúde. Social connection. 2025.

OECD. Social Connections and Loneliness in OECD Countries. Paris: OECD Publishing, 2025.

Nyhan, B. et al. Like-minded sources on Facebook are prevalent but not polarizing. Nature, 2023.


 
 
 

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